Permanecer todo este tempo em casa, devido às medidas de prevenção relativas ao vírus Covid-19, levou-nos a valorizar o nosso espaço como nunca antes.
Em poucos dias, a percepção que tínhamos do espaço da nossa casa mudou por completo. Estamos agora mais conscientes de como esta serve as nossas necessidades e as da nossa família.

É uma oportunidade - e também uma necessidade - de melhorarmos o que temos, e de reflectir sobre como cada divisão pode servir-nos e contribuir para uma vida com maior qualidade.

Caso se encontre a debater com a falta de zonas para as variadas funções que a sua casa precisa de ter, então este artigo poderá ajudar a resolver essa questão e transformar o seu lar num espaço mais equilibrado, eficiente e harmonioso.

Decidi fazer este artigo com o objectivo de o ajudar a identificar por si mesmo os pontos fortes e fracos do espaço mais vivido da casa: a sala.
Para ter uma boa qualidade de vida em casa, não bastará ter um espaço funcional. O espaço que construímos para nós deverá refletir a nossa identidade, o que nos faz bem, o que nos tranquiliza e o que nos estimula. A casa deve ser uma combinação de elementos sensoriais com funcionais.

É por isso que nunca encontramos duas casas iguais: todas são diferentes e únicas, como nós. Esse é o propósito do SOI - aproximar as pessoas do seu sentido de identidade através do espaço.

Neste artigo vamos examinar cada detalhe do planeamento de um espaço de sala através de um processo de reflexão e exercício para que consiga integrar este conhecimento na sua realidade.

VAMOS A ISSO?

Começamos por identificar todas as funções que a sala deve cumprir:

1) espaço de descanso/leitura/ entretenimento (ver filmes, por exemplo)
2) escritório em casa - para uso de um ou mais membros da família com computador e mesa;
3) área lúdica/ de brincadeira/ Jogos
4) zona de circulação
5) espaço para arrumação
6) área de refeições

Claro que nem todas as pessoas precisam de integrar todas estas funções no mesmo espaço. Mas através do mesmo exercício, cada um poderá aplicar ao seu caso específico.
Cada uma destas funções deverá ter uma zona própria, como um sub-espaço.
E para saber como distribuir cada uma destas zonas na sala, devemos identificar os pontos fortes e fracos do espaço e iniciar o planeamento.

Quanto mais conseguir dividir o espaço nas áreas necessárias, melhores resultados de funcionalidade e harmonia irá ter.

Vamos olhar para um exemplo de uma sala rectangular, com uma porta interior e com porta para uma varanda/jardim. Utilizaremos este exemplo durante todo o exercício.



Iniciando o planeamento da área da sala, devemos identificar 3 áreas fundamentais: locais de passagem, zonas frias e zonas quentes.

Os locais de passagem são junto às portas de acesso ao espaço. Estas áreas onde existe mais tráfego, não devem servir nenhuma função. Isto para que se consiga uma circulação fluída de entrada e saída da sala sem qualquer obstrução. Um raio de 80cm é o mínimo.

De seguida, identificamos as zonas com menos iluminação e fora do circuito de circulação do espaço: os cantos, a que chamamos de zonas frias
Estas áreas deverão ser tratadas com especial carinho de decoração, para que se transformem em espaços úteis e acolhedores. Mais à frente falaremos de técnicas para os transformar em espaços harmoniosos recorrendo à iluminação. Nenhum espaço na sala é melhor ou pior que outro, deve é ser tratado de forma diferente devido às suas características de luz natural e localização no espaço.

Seguidamente, identificamos as zonas quentes, são todas as áreas restantes. Este é o espaço que naturalmente utilizamos para estar na sala, que deve ser reservado para as funções mais importantes do dia-a-dia. Estas funções dependem de cada casa e de quem lá vive.

Identificadas as zonas e a análise do espaço feita, avançamos para a atribuição de cada função no espaço.
Zona quente - espaço de descanso/ entretenimento (ver filmes) / refeições/ escritório em casa
Zona fria
- escritório em casa/ espaço para arrumação/ área lúdica, jogos/ Leitura

Usando o nosso exemplo, começamos a fazer uma distribuição:

A zona quente será zona de descanso e refeições. Numa das zonas frias, colocaremos a área de leitura e de escritório em casa, e vamos atribuir ao canto oposto a área lúdica, visto que as duas devem estar distanciadas para não interferirem uma com a outra.

De seguida vamos delimitar o espaço para cada função, utilizando o mobiliário para criar “barreiras” entre as zonas.
Para áreas maiores, uma estante independente ou um armário podem ser usados para simular uma parede enquanto mantém passagem de luz natural.

Para espaços mais pequenos, utiliza-se a orientação do mobiliário, a iluminação, tapetes e objectos de decoração. 
Vamos ver em mais detalhe como se podem construir este sub-espaços. Começaremos pela definição da altura dos móveis.

Móveis altos devem ser aplicados nas zonas frias, para não interferirem com a luz natural e para não obstruirem a circulação do espaço. Logo, no caso do nosso exemplo, as paredes de zonas quentes não devem ser ocupadas por nenhum elemento de mobiliário de arrumação alto e pesado. Nas zonas frias teremos muito espaço para os colocar. 
O recorte de móveis altos cria um efeito de skyline com muitas sombras altas que não beneficia a harmonia do espaço. Por isso, devemos considerar que todos os móveis altos tenham a mesma altura.
Se usar mais do que um, devem estar separados em cada lado da sala. E de preferência, a ocupar paredes inteiras para não criar recortes desnecessários no espaço.

De seguida vamos estabelecer os pontos de iluminação.

Ter diferentes arranjos de luz na sala ajuda a separar as funções de cada área. Por exemplo, um candeeiro de teto suspenso por cima de uma mesa funciona para definir espaços amplos como de refeições, criando uma espécie de epicentro da zona. Já um candeeiro de chão junto a uma mesa cria um local acolhedor, selecionado para leitura ou trabalho, por exemplo.

Outro fator importante da iluminação é a profundidade do espaço. Deve existir um ponto de luz baixa em todos os cantos da sala. Pode ser incluída iluminação interior dentro dos móveis altos para trazer textura e profundidade à zona. Consegue alcançar isto através de iluminação embutida ou de candeeiros de mesa.

Criar estes pontos de luz pelo espaço reforça o que se chama depontos focais, que são os pontos visuais em cada espaço que os nossos olhos utilizam para reconhecer os limites do ambiente. Por exemplo, quadros grandes ou estantes são óptimos pontos focais por serem elementos visuais fortes, e em cada um destes pontos deverá estar atribuída uma função do espaço.

Nesta imagem temos um exemplo de criação de pontos focais. Onde identificamos uma estante ao fundo que define a zona de estar, e uma área de refeições delimitada por um candeeiro de teto









Outro elemento decorativo muito útil na definição de zonas, são os tapetes.
Talvez sejam até a maneira mais simples de criar zonas designadas dentro do espaço.
Para além de delimitar, os tapetes servem para destacar, criando uma espécie de palco para a acção, distinguindo uma área das outras. Não sobrecarregue o espaço com muitos tapetes. Dois são suficientes, colocados de forma intercalada no espaço, para mantê-lo elegante e criar dinâmica.

Resumindo, com este conhecimento de zonas de circulação, zonas quentes e zonas frias, altura de móveis, iluminação, pontos focais e tapetes, já conseguimos começar a definir o layout da sala exemplo com todas as funções que precisamos. 

Aqui está esse mesmo layout. Todas as zonas estão identificadas com legenda, sendo que os pontos de luz estão identificados com círculos amarelos.

Um dos elementos mais importantes de referir neste exemplo é a mesa de centro da zona de descanso, que divide o espaço lúdico da zona de leitura. Um larga e estruturada mesa de centro pode servir para criar puzzles, jogos em familia, ou até mesmo uma área de criatividade para trabalhos de DIY (do it yourself - faça você mesmo).
Outro elemento importante de mencionar é a iluminação de pé junto à mesa de jantar, que sinaliza uma possível zona onde se pode trabalhar ou estudar. Confere-se assim duas funções à mesa.

É de referir que quando usamos o mesmo espaço para duas funções, é necessário ter um bom suporte de organização para deixar o espaço livre quando se muda de funções. 
Por exemplo, no caso de trabalhar na mesma mesa que serve de refeições, deve ter um espaço designado para arrumar (longe da vista) todos os materiais de trabalho. Assim conseguirá descansar sem ter o trabalho no canto do olho. 
Este espaço designado pode ser uma consola ou uma cómoda baixa, ao nível da mesa.

Aqui está outro exemplo de um layout para o mesmo espaço, onde já se contempla uma mesa de escritório.

De modo a não perder área para a zona de descanso e de leitura, a mesa de refeições passa a ser circular para se integrar de forma mais harmoniosa no centro do espaço.
Neste caso a consola de apoio é colocada nas costas do sofá, reforçando a segmentação do espaço.
A secretária pode ter uma orientação a direito ou ficar enviesada, mas nunca de frente para a porta, para não desestabilizar a concentração sempre que alguém entra e sai do espaço. Pode usar um biombo ou uma planta para resguardar o espaço e criar privacidade. Pode ainda, de forma a segmentar esse espaço dos restantes, utilizar uma estante de parede ou prateleiras  (por exemplo com livros e objectos) que abrace este sub-ambiente e crie um ponto focal. 

Para terminar, outra forma de distinguir zonas no espaço com harmonia, assim como conferir identidade, é fazer uso das cores. 
As cores são elementos cruciais para criar um ambiente elegante, com design e com estímulo. 
Para ambientes mais amplos, a escolha de cor pode ser feita com recurso a uma paleta mais diversificada, com texturas variadas. Já em espaços mais pequenos, como no exemplo de layout que temos utilizado no exercício, deve-se usar uma paleta mais controlada para não criar ruído e manter uma história de cores e texturas consistente que funcione em toda a sala.

Pode considerar o uso de cores para destacar zonas diferentes, mas a sensação geral das zonas deve parecer muito unificada. Para conseguirmos essa unificação da cor pelas várias secções, devemos considerar a distinção entre elementos grandes e pequenos. Por exemplo, se o sofá/ poltronas têm uma cor, esta cor não pode ser repetida em mais nenhum mobiliário noutras zonas do espaço, com excepção de objectos decorativos ou quadros. 
Podemos ter o sofá de uma cor forte e as poltronas da mesma cor mas mais suave (ou vice-versa) para criar dinâmica na sub-divisão do espaço de descanso. 

A utilização de mobiliário e objectos mais brilhantes deve ser considerada para zonas do espaço com menos luz, assim como o uso de espelhos, pois refletem a luz do resto do espaço e trazem dinâmica visual. No caso específico dos espelhos, estes trazem profundidade ao espaço mas não devem ser colocados de frente para uma zona de passagem, uma vez que a replicação deste tipo de movimento cria desarmonia do espaço. 

Neste exemplo resulta muito bem a colocação de um espelho alinhado com a mesa redonda. Não só apoia na segmentação do espaço como traz profundidade à zona de refeições.




Outras ideias que pode fazer no seu espaço de sala para criar diferentes zonas são:

Uma mesa atrás do sofá pode criar um espaço de trabalho:

Um recanto de leitura confortável no canto da zona de descanso pode se tornar o seu espaço favorito da casa:



Uma poltrona de costas para um sofá, permite criar mais uma área resguardada da zona principal da sala de estar:

Espero que este artigo tenha sido útil e que ajude a criar um espaço cada vez mais próximo das suas necessidades e do seu sentido de identidade.

Até breve,
Diana Carvalho - SOI Home & Store Design